(Vejam todas as fotos dessa aventura no meu Flickr)
Virginie me deu um dos melhores presentes dos últimos tempos: um estágio de pilotagem de Fórmula Renault! En agosto, pleno verão europeu, lá fui eu, com a mulher, a mãe e a filha, a La Ferté Gaucher, uma cidadezinha perdida no meio do nada, a apenas 80 km de Paris. Lá está localizado o circuito LFG, no Aérosphalte, um complexo de lazer construído na área do aeroporto local. Imaginem que eu já havia dirigido, alguns dias antes, 800 km de Barcelona a Imphy (Borgonha), onde fica a casa dos pais de Virginie (por sinal, ao lado de Magny-Cours). Depois, 220 km de Imphy a Paris, onde passamos a sexta-feira passeando. E à noite, dirigi mais 80 km até o circuito LFG, onde pernoitamos, para fazer o estágio no sábado pela manhã - o circuito oferece alojamento: hotel e bangalôs. Dormimos em um bangalô confortável, mas fazia um frio do caramba!
O estágio de pilotagem dá direito a 7 voltas ao volante de um Fórmula Renault numa pista de 1,5 km. O circuito completo tem, na verdade, mais de 3 km, porém está dividido em vários trechos. O trecho mais técnico foi o que utilizamos (parte direita da imagem). É um circuito homologado pela FFSA e projetado por Frantz Shreiner, arquiteto austríaco. Durante meu estágio, faziam estágio de carros de passeio (Porsches e Ferraris) no outro trecho.

Antes de pilotar, houve um briefing técnico de 30 minutos, quando os instrutores da escola de pilotagem Diabolo explicam o funcionamento do carro, as técnicas de direção, aceleração e frenagem, como “atacar” as curvas, as normas de segurança, etc. Dirigir um carro com 200 cavalos de potência e tração traseira (além do motor estar localizado na parte traseira) não é o mesmo que dirigir um carro de passeio “normalzinho”. Os pedais são muito mais duros, e o efeito de acelerar e frear é muito, mas muito mais forte!
Quando se acelera, o peso do carro se concentra todo na parte traseira, o que faz com que os pneus dianteiros percam aderência. Quando se freia, é o contrário: o peso vai para a frente e o carro ganha aderência dianteira. Por isso, não se deve acelerar nas curvas, pois há o risco de rodar e parar na grama. Foi o que aconteceu com alguns dos que participaram no estágio.

Éramos uns 20 “aprendizes de piloto”, e tivemos que nos revezar nos cinco monopostos que havia disponíveis. Alguns pegaram os carros de câmbio convencional, e outros, como eu, caíram nos carros de câmbio sequencial. O câmbio sequencial é uma alavanca do lado direito que, para subir a marcha, deve ser puxada no sentido do próprio corpo, mas sem apertar a embreagem. Para reduzir, é o contrário: empurra no sentido oposto, só que, desta vez, apertando a embreagem.
Para fazer as curvas, eles explicavam que tem que se tentar o melhor ponto possível para tangenciá-las, freando com força o mais tarde possível, entrando pelo lado externo e depois acelerando suavemente a princípio e aumentando aos poucos, à medida que se sai da curva. No circuito, eles colocaram cones de diferentes cores en cada curva, para que nós tivéssemos uma idéia de para onde se tem que apontar o bico do carro quando se entra e sai da curva, e assim fazê-la da forma mais ótima possível.

Depois de tudo explicado, fomos ao reconhecimento do circuito. Dentro de umas vans, fizemos duas voltas na pista como passageiros, com os instrutores explicando cada ponto e suas peculiaridades. Somente havia dois trechos da pista em que era permitido ultrapassar. Nesses trechos, havia cones dividindo a pista em dois. As regras para ultrapassagem eram muito estritas: os carros deviam sempre manter uma distância mínima de segurança. Se os fiscais notassem que um estava mais lento, davam bandeira azul. A partir daí, o que recebesse bandeira azul tinha que esperar chegar a uma das áreas de ultrapassagem, tomar o lado indicado pela separação dos cones e, somente então, o que viesse atrás poderia ultrapassar pelo outro lado dos cones, com toda segurança. Como diria Galvão: é, meu amigo, chegar é fácil, mas ultrapassar, hehehe… Explicaram que isso é necessário porque, em caso de um toque, há o risco dos carros perderem o contato com o chão e literalmente voarem. E como éramos pilotos de um fim-de-semana, melhor prevenir que remediar…
Depois do reconhecimento, vamos lá! De cinco em cinco, tive que esperar mais de meia hora para chegar a minha vez. Capacete e balaclava (meio mixuruca a balaclava) colocados, já fazia um calor danado quando entrei no cockpit. E pensar que ao acordar fazia somentes 8 graus! Fiquei em um carro com câmbio sequencial, o que torna mais simples passar as marchas. Mas não esperava que fosse tão dura a alavanca do câmbio, tinha que dar quase uma porrada de uma vez para passar as marchas. Nas primeiras vezes, tentei passar suavemente e a marcha não entrou. O motor rugiu feito doido. O barulho do motor é enorme, imagine como será um Fórmula 1! Detalhe: o painel é muito simples, só tem conta-giros e uma luz vermelha que indica quando a rotação está muito alta para a marcha em que estamos. Nada de velocímetro.

Os Fórmula Renault são carros da categoria escola do automobilismo, para pilotos jovens que vêm do Kart. São ideais para aprendizagem, já que são muito sensíveis. Com uns 200 HP, podem chegar até 220 km/h. Mas no circuito técnico em que estávamos, a reta mais longa de longa não tinha nada. Acelerando à toda, não dava para chegar até a quinta marcha. Ao passar a quarta, já estávamos chegando na próxima curva. Por isso, acho que a velocidade máxima que chegamos devia estar entre 150 e 200 km/h.
A sensação de estar dentro de um monoposto é incrível. Esqueçam os joguinhos de computador, estar realmente dentro do bicho, vendo a curva chegar, sentindo a reação do carro, o corpo sendo jogado pro lado, prá frente, prá trás, é uma diferença imensurável entre as sensações. Nas duas primeiras voltas eu fui bem pianinho, já tinha visto alguns caras rodarem e saírem da pista, e escaldado de bater no muro nos simuladores de computador quando a gente acelera muito, fui com calma. A tal ponto que Virginie achou que meu carro estava com problema quando passei pela reta dos boxes na primeira volta. Levei bandeira azul duas vezes, pois havia uns caras que já estavam antes na pista e já acostumados, indo mais rápido. Por sinal, na primeira volta eu simplesmente esqueci de baixar a viseira do capacete!!! Um dos fiscais que me fez sinais avisando!!! Já pensou se vem uma mola de Barrichello solta na minha frente???
A partir da terceira volta, comecei a acelerar mais e mais, arriscando chegar nas curvas cada vez mais em cima da hora. Um fiscal ficou louco comigo porque por duas voltas seguidas eu ataquei uma chicane sem abrir muito na curva, tava já comendo zebra. Como diriam os espanhóis, já estava dirigindo como um autêntico “Fittipaldi”. Aí dei um aceno prá ele como quem diz: “Foi mal aí, véi”, e na volta seguinte entrei mais de leve, abrindo na direção que indicava o cone. Ainda bem, senão o cara me dava uma bandeira vermelha!

Eu sei que a coisa já estava ficando boa, quando de repente, me mostraram a bandeira quadriculada! Ganhei??? Não! É que acabaram as sete voltas! Putz! Você fica tão concentrado que nem pensa em que volta está. Agora entendo porque Nelsinho Piquet teve que perguntar pelo rádio em que volta estava, antes de se espatifar no muro de Cingapura. Lá dentro do cockpit, não dá prá pensar em muita coisa. Que pena, tudo passa literalmente muito rápido! Quando eu já estava pensando em bater o recorde do circuito, tive que voltar aos boxes…
Mas valeu à pena, a emoção foi muito forte, a sensação, indescritível! Em uma palavra: massa (e não me refiro a Felipe)!!! Espero fazer de novo um dia, mas desta vez com mais voltas, prá não ficar com gostinho de quero mais! Em Magny-Cours tem um estágio desses que dura umas 25 voltas no próprio circuito que é usado para a Fórmula 1. É lá que vou da próxima vez! Já vou ter que ir economizando dinheiro.
Vejam todas as fotos dessa aventura no meu Flickr.

E obrigado pelo presente, meu amor!!!
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